segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

1901 - A Revolução Macapaense


Foto de 1913 - Cenário de Macapá no inicio do século XX

Em 10 de maio de 1901, o capitão Aprigio Perez Nunes, delegado de policia de Macapá, sofre um conflito armado pelo tenente Pompeu Aureliano de Moura, comandante de um destacamento do Exercito instalado na Fortaleza de São José de Macapá, em represália à decisão de Perez Nunes, de tirar do Exército a incumbência do policiamento da cidade. A retirada desta responsabilidade do Exercito, foi em razão de estarem acontecendo várias arbitrariedades cometidas pelos aquartelados na Fortaleza, como abuso de autoridades etc.

Com o consentimento do intendente Teodoro Mendes, Perez Nunes vai a Belém conserser com o chefe de policia daquele municipio, a fim de recrutar pessoas para fins de instalar uma policia civil no Amapá. Durante sua estada em Belém, Pompeu Moura, depois de várias reuniões, consegue convencer a população de Macapá de que Perez Nunes havia ido a Belém recrutar varios pára-militares com a intenção de tomarem a cidade, para transformá-la numa região independente, a exemplo de Cunani. Ao regressar com oito novos policiais civis, Perez Nunes é abordado por soldados da Fortaleza que fizeram fogo ao delegado de policia e seus novos recrutas. Nunes conseguiu fugir ao cerco e volta novamente a Belém, para relatar o caso ao seu chefe, o delegado de Policia de Belém.

Em 22 de maio de 1901, uma corveta da marinha brasileira aporta em Macapá, conduzindo um oficial do Exército, uma guarnição militar e o capitão Aprigio Nunes, para renderem o tenente Pompeu Moura, responsável pelo conflito.

Existe uma outra versão para o conflito, de autoria de Ernesto Cruz (História do Poder Judiciário, pág. 100).:

26.03.1901. Acontece em Macapá um conflito entre as tropas do capitão da Guarda Nacional de Macapá, delegado de Policia Aprígio Perez Nunes e do tenente de Infantaria do Exército, sediado em Macapá, Pompeu Aureliano de Moura, que teve apoio do juiz de Direito Manoel Buarque da Rocha Pedregulho. Há troca de tiros e lutas entre os contendores. Na realidade, os partidários do delegado Aprígio eram simpatizantes do governo anterior do Pará, Lauro Sodré, que foi derrotado..

Nesta mesma data, assume um novo juiz da Comarca de Macapá, Francisco Peregrino dos Santos Tocantins, considerado “Laurista” – partidário do governador Lauro Sodré. Há boatos de que haviam deposto o presidente da República Campos Sales e o vice-presidente Rosa e Silva havia assumido, e que o novo governador do Pará, Augusto Montenegro, havia aderido ao movimento, mas que sua adesão não havia sido aceita.

No dia anterior, 25 de março, havia chegado à capital o juiz Manoel Buarque, como juiz de Direito substituto, considerado “lemista” – partidário do governador Antonio Lemos – acompanhado do capitão Aprígio Peres Nunes, prefeito de Segurança de Macapá. Os lauristas, que constituíam a maioria e que viviam sob regime de opressão, rebelaram-se e atacaram o juiz substituto e o prefeito de policia, ajudados pelo chefe da policia local, coronel Coriolano Jucá, e o alferes do Exército, tenente Pompeu Aureliano de Moura, comandante da Fortaleza de São José. Todos lauristas.

Os amotinados cometeram excessos, prendendo o juiz e sua família em um chiqueiro, na companhia de suínos. A política partidária exacerbada jogava juiz contra juiz. O episódio chegou à troca de tiros entre os litigantes e o juiz de Direito Manuel Buarque, que sempre foi imparcial, só pelo fato de ter sido nomeado pelo governador Augusto Montenegro, sofreu os vexames que posteriormente foram levados ao tribunal.

á

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cabanagem em Macapá e Santana



Foto de 1910. Macapá no inicio do século XX, tendo como fundo a Fortaleza de Sao José, pela Praça Beira-Rio


Sobre a participação de Macapá, Mazagão e Santana no combate aos cabanos, vejamos o relato do geógrafo Antonio Carlos: [1]

No período de expansão dos conflitos provocados pela Cabanagem na região, o espaço amapaense se configurava principalmente como palcos de resistência a esse movimento social, considerado como um dos mais notáveis de nossa história, já que foi a única insurreição em que as camadas populares conseguiram ocupar o poder durante um espaço razoável de tempo.

Macapá, Mazagão e Santana, por terem sido núcleos de povoamento feitos através de colonos deslocados das possessões territoriais portuguesas na Africa, apresentavam oligarquias locais com forte lealdade ao Estado conservador remanescente da Coroa portuguesa que havia se instalado no país após 1822, com o processo de Independencia.

Essas oligarquias, que constituíam uma minoria privilegiada, passaram a mobilizar seus recursos e capital para o fortalecimento da resistência aos cabanos, impondo a esse movimento duras baixas, já que o mesmo procurava destruir as bases da dominação política e econômica desta elite regional. Dessa maneira, Macapá e Mazagão passaram par a a história como burgos que combateram os cabanos despossuídos em defesa da legalidade das classes hegemônicas do Império.

Nesse período, os franceses tentaram tirar proveito da situação de conflito e instabilidade na região instalando uma fortificação em um dos lagos do município de Amapá, e a partir daí passaram a dar apoio ao movimento cabano. As ações francesas no Amapá provocaram reações da Capital (Rio de Janeiro), sendo que, como forma de retaliação, a população começou a evitar a compra de produtos originários da França. Diante de tais pressões, o governo Frances retirou suas tropas do Amapá em 1841, tendo os dois países concordado em transformá-lo numa região contestada, passando a ser administrado por um representante do governo brasileiro e outro do governo frances. A desorganização política e econômica da área do Contestado o tornou palco de movimentos separatistas. Um deles foi a fracassada tentativa de independência, quando foi transformado em Republica do Cunani (1885-1887) através de um movimento licerado por um aventureiro frances conhecido como Jules Gross. Este ultimo fato intensificou as pretensões francesas na área.

O desrespeito ao acordo de neutralização por parte dos franceses, principalmente com a descoberta de ouro em Calçoene, motivou sérios conflitos no final do século XIX, estremecendo as relações diplomáticas entre Brasil e França. [2]


Notas históricas sobre a reação á Cabanagem


15 de agosto de 1823 – Os vereadores de Macapá e Mazagão fazem o juramento, em obediência ao novo regime do governo imperial do Brasil, após a Independência. Ver documento.

01 de abril de 1824 – A Junta Provisória envia circular ao governo da vila de Macapá, fornecendo instruções que deverão ser observadas no combate aos cabanos nessa região. Ver documento.

15 de maio de 1824 – A Junta Provisória do Governo de Santarém envia instruções ao governador interino de Praça de Macapá, João Baptista da Silva, para serem observadas durante o combate aos cabanos em Macapá. Ver documento.

7 de janeiro de 1835 – Felix Antonio Clemente Malcher assume no Pará um governo revolucionário, e Bernardo Lobo de Sousa, presidente da Província, é assassinado. Começa o período cabano. Macapá e Mazagão rejeitam o novo governo. Alguns cabanos começam a se fixar no Amapá.

27 fevereiro de 1835 – O juiz de Direito e promotor público de Macapá decide apoiar a decisão da Câmara do Senado em resistir à Cabanagem que ocupou as cidades de Belém e Vigia.

19 de abril de 1835 – Reunidos, os vereadores de Macapá decidiram não aceitar a moeda de cobre criada pelos cabanos que governavam o Pará. Em vista disso, a guarnição da Fortaleza de Macapá não recebia seus saldos há sete meses. Preocupado, o capitão Joaquim Romão de Almeida levou o problema ao juiz de Direito Francisco Valente Barreto e ao promotor Estácio José Picanço. Ver 24 de abril de 1835.

22 de abril de 1835 – Uma comissão de cinco membros, escolhidos em sessão realizada nesse dia, apresenta à Câmara de Macapá o plano de defesa da vila contra os cabanos. O presidente da Província do Pará delega autoridade ao juiz de Direito Manoel Gonçalves Azevedo para presidir a comissão, que era composta por dois capitães (Joaquim Romão de Almeida e Francisco Valente Barreto), pelo promotor público Estácio José Picanço e mais outros dois, para organizarem o plano. A comissão consegue a nomeação do tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos com comandante militar de Macapá.

18 de maio de 1835 - Chega à vila de Macapá o tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos para comandar a Praça de Macapá. Ele passa a ter, a seu comando, um reforço de seis capitães, seis tenentes, seis alferes, um sargento-ajudante, um sargento-quartel-mestre, 103 sargentos, 205 cabos e 315 soldados.

27 de agosto de 1835 – Reúnem-se na Câmara de Macapá as autoridades civis, militares, eclesiásticas e a população em geral, para encontrarem estratégias de resistência aos cabanos que haviam conquistado Belém e Vigia.

05 de setembro de 1835 – O comandante militar de Macapá, Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, envia circular às autoridades e fazendeiros macapaenses, dando instruções sobre o combate aos cabanos que já pensavam em tomar Macapá. Ver documento.

20 de dezembro de 1835 - Os cabanos que se refugiaram em Ilha de Santana são expulsos.

01 de janeiro de 1836 – O capitão Fernando Rodrigues, comandante da 1ª Cia. da Guarda Nacional, escreve a Jorge Rodrigues, dando notícias sobre a resistência imperial por ocasião da Independência do Brasil em Macapá. Ver documento.

02 de janeiro de 1836 – O comandante militar de Macapá, Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, escreve ao governo provincial do Pará, relatando a oferta de várias embarcações de comerciantes de Macapá, para o combate aos cabanos. Ver documento.

12 de fevereiro de 1836 – Por ofício de nº 24, o comandante da Praça de Macapá, major Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, relata ao presidente da Província do Pará, Jorge Rodrigues, que os norte-americanos estavam dispostos a trocar armamento com gêneros alimentícios.

28 de fevereiro de 1836 – Sai de Macapá uma expedição chefiada por Raimundo Joaquim Pantoja para atacar os cabanos de Breves. Ver 07 de março de 1836.

7 de março de 1836 – Raimundo Joaquim Pantoja, partindo com o alferes Francisco Pereira de Brito e soldados da praça de Macapá, chega em Gurupá (no Pará), onde se encontram os cabanos. Ver 8 de março de 1836.

8 de março de 1836 – Combate na foz do rio Caju-Una, entre cabanos e tropas legalistas, participando soldados macapaenses.

13 de março de 1836 – O major Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos recebe novamente o macapaense e capitão da Guarda Nacional Raimundo Joaquim Pantoja, que solicita mantimentos e armamentos para o combate aos cabanos nas ilhas vizinhas. Monterozzo Acode, prestando-lhe auxílio e providenciando armamentos.

15 de março de 1836 – O comandante da Praça de Macapá, major Francisco Monterozzo, comunica ao presidente da Província do Pará, Jorge Rodrigues, a presença do capataz Manoel Pedro dos Anjos, tenente-coronel comandante dos cabanos, entre as forças que estavam alojadas no litoral da ilha de Marajó. Refere-se ainda à vitória conseguida pelo capitão Pantoja e seu ajudante Francisco Pereira de Brito, contra os rebeldes localizados em Curuçá e Caju-Una.

17 de março de 1836 - Chegam à vila de Macapá as autoridades de Santarém que acaba de cair em mãos dos revolucionários cabanos, entre elas o juiz de Direito da Comarca de Tapajós, Joaquim Francisco de Souza. (Vidal Picanço, Estácio, Informações sobre História do Amapá, Pág. 85).

23 de março de 1836 – O major Francisco Monterozzo comunica, em ofício, ao presidente da Província do Pará, marechal Jorge Rodrigues, que os cabanos haviam se apossado das cidades de Gurupá e Santarém, chegando aqui na então vila de Macapá, as principais autoridades desses dois municípios paraenses.

15 de abril de 1836 – Sai de Macapá uma expedição comandada pelo alferes Brito, destinada a desalojar os cabanos do arquipélago do Bailique. Ver 17 de abril e 29 de maio de 1836.

17 de abril de 1836 - Pelo ofício nº 34, o major Francisco Monterozzo informa ao general Jorge Rodrigues que no dia 15 o capitão Raimundo Joaquim Pantoja autorizou o alferes Brito, com três oficiais e 50 guardas de Portel, a saírem de Macapá para a ilha de Gurupá, em duas embarcações, para defenderem a vila de Portel, que se achava ameaçada pelos cabanos do Tapajós.

28 de abril de 1836 – O alferes Brito derrota os cabanos da região de Bailique.

24 de maio de 1836 – O comandante militar de Macapá, major Francisco de Siqueira Monterozzo, escreve ao comandante da Província do Pará, informando do envio de documentos considerados suspeitos, aos cabanos da região. Ver documento.

05 de dezembro de 1836 – Monterozzo escreve ao governador do Pará referindo-se a um episódio ocorrido em 20 de novembro do mesmo ano, em Ilha Vieirinha, perto de Macapá, onde sessenta soldados mataram 30 cabanos ali alojados, incendiando suas casas e apropriando-se de seus pertences. Ver documento.


9 de julho de 1839 – O comandante da Praça de Macapá, tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo Mello da Silveira Vasconcellos, é deposto do comando, sob suspeita de que ele favorecia aos cabanos. Ver 29 de julho de 1839.

29 de julho – O Visconde de Souza Franco, governador do Pará, escreve ao ministro da Guerra, conde Lajes, noticiando o conflito ocorrido em 8 de julho, em Macapá, que resultou na deposição do tenente-coronel Francisco de Siqueira Monterozzo, sob acusação de favorecer aos cabanos. Ver documento.

01 de março de 1840 – O governo da Província do Pará cria a Colônia Militar Pedro II, situada à margem direita do Araguary. A partir desta data finda o periodo cabano em Macapá.

[1] O nome completo do geógrafo é Antonio Carlos Rodrigues dos Santos
[2] SANTOS, Antonio Carlos Rodrigues dos; Geografia do Amapá, 3ª Ed, 2005, Gráfica RVs, Macapá, p. 14.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Visitem meus outros blogs


BLOG DO EDGAR RODRIGUES
Cronicas e notas históricas
http://www.edgar-amapa.blogspot.com;

AMAPÁ DIA A DIA
O dia-a-dia na História do Amapá
http://www.rodrigues-edgar.blogspot.com;

CRONICAS DO AMAPÁ
Historia do Amapá em forma de crônica
http://www.edgar-rodrigues.blogspot.com;

NIRNAÊ, SAGA TUCUJU
http://www.niranae.blogspot.com

A POESIA DE EDGAR RODRIGUES
http://www.edgar-poesia.blogspot.com

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

História do primeiro assalto ocorrido em Macapá

Esta história eu peguei do cronista Bellarmino Paraense de Barros. Ele escreveu, no Jornal do Dia, edição de 1994, que em Macapá, na década de 50, foi instalada a primeira agência do Banco do Brasil, que mesmo assim passou a ser subordinada a Belém.

Dois portugueses, um de nome Manuel e outro Joaquim (novidade, héim?), estavam passando necessidade em Macapá. Depois de tanto procurar emprego, ou tentar fazer algum empreendimento, eles resolveram bolar um assalto a banco. Assim, conseguiram cada um uma pistola, e uma máscara cada, para que não fossem reconhecido.

No dia certo, bastante calculado, eles entraram na agência do BB, da Coriolano Jucá, e um rendeu o gerente, e outro rendeu os três caixas, os funcionários e os clientes, que ficaram deitados no chão.

De repente, chega o inspetor Ítalo da briosa Guarda Territorial, com uma guarnição da GT, fazendo um barulhaço. De posse de dois malotes cheios, cada um com um, resolveu se separar e, cada um por si... Assim dispararam velocidade, conseguindo driblar o pessoal da GT, para frustração dos moradores.

Sete anos se passaram. Tempo suficiente para que todos esquecessem do assalto. Manuel estava sentado em um dos bancos da praça Veiga Cabral, todo maltrapilho, vivendo realmente como mendigo. De repente aparece um cara todo vistoso, de paletó, num cadilack ultimo modelo, com duas mulheres lindas de tirar o fôlego. Assim, Manuel olha para ele e pede uma esmola. O visitante, com aparência de rico, mira nele e pergunta:

__ Hei, patrício. Você não me conhece mais? Você não é o Manuel? Eu sou o Joaquim, teu amigo de décadas atrás. Não te lembra?
Assim os dois se abraçaram, conversaram muito. Joaquim falara que ele tinha três iates, cinco apartamentos em Nova York, um na capital paulista e outro no último andar do edifício Manuel Pinto da Silva, em Belém. Então, surpreso, e... de repente voltando à tona, Manuel arrisca uma pergunta:

- Tu te destes bem, não foi Joaquim? Conta-me. Como foi que conseguiste esta fortuna toda que dizes ter?

__Olha, Manuel. Depois daquele assalto eu fugi como combinamos. Peguei uma lancha e fretei logo o barco para uma viagem rápida até Belém. Quando estava no meu camarote, abri o malote e eis que encontro muitos dólares e francos. Nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida. Assim, chegando a Belém, eu dei um jeito de sair antes de chegar ao porto, pois sabia que a polícia estava no meu encalço. Resolvi pegar outro barco e fui até o Nordeste, onde passei a comprar imóveis. Anos depois fui até São Paulo, e comprei mais coberturas de apartamentos. Consegui , com o dinheiro, também mudar de identidade. Então me encontrei com outro amigo, e ele disse que dois iates estavam à venda. Fui até lá e imediatamente comprei. Já me casei quatro vezes e resolvi me separar, pois não conseguiu nascer nenhum herdeiro. Fui até Belém e resolvi morar no ultimo andar do Manuel Pinto da Silva. Passados sete anos, resolvi voltar para cá, por Macapá, para ver se ainda estavas por aqui.

__ Puxa, Joaquim. Tiveste muita sorte, héim?

__ Sim. Eu tive. E você, o que aconteceu? Por que esta roupa estraada, esta cara de mendigo? O que aconteceu com você, ô gajo?

__ É. A sorte está boa para uns e fica ruim para outros. Você teve uma sorte tremenda em conseguir tanto dinheiro. Naquele dia do assalto, quando nos separamos, também eu peguei uma outra lancha e fui até o camarote. Abri o malote e eis que não encontro nada de dinheiro. Só encontrei contas a pagar. Foram tantas as contas que encontrei dentro do malote, que vendi todas as minhas posses que até hoje não consegui pagar todas.

domingo, 8 de novembro de 2009

A Banda, pequeno histórico


A Banda é um dos grandes blocos de sujo que desfila no período do Carnaval em Macapá, sempre na terça-feira gorda. Nasceu durante reunião de vários foliões, entre eles Alice Gorda, Savino (Savino, José Figueiredo de Souza), Jaci, Jô, Wanderley, Cutião, os irmãos Suçuarana e outros. As primeiras reuniões para organização da Banda ocorreram no antigo bar Gato Azul (Antes Elite Bar), entre a rua São José e a av Presidente Vargas, em 1965.

O surgimento da Banda, segundo depoimentos de Alice Gorda, se deu “em protesto à resistência e às imposições militares, um ano após o golpe de 1964.”

Para Alice, tudo começou quando os carnavalescos souberam que o Boêmios do Laguinho não iria para a avenida em 1965. Assim os carnavalescos da velha guarda reuniram-se para organizar um bloco de sujo que congregasse todos. A primeira reunião aconteceu na terça-feira gorda de 1965. O primeiro ano foi de experiências. No ano seguinte a Banda já estava mais recheada.

Com o passar dos tempos, a Banda foi tomando outras formas, ampliando-se os carros alegóricos, as bonecas, a “carrocinha do me”, o banheiro ambulante e outras atrações. A população passou a prestigiar a presença da Banda, no correr dos anos, nas avenidas, como indispensável para o brilho do carnaval.

Para Alice Gorda, “a Banda é exatamente o retrato do povo amapaense. Não existe preconceito e nem precisa estar com muito dinheiro para curtir esse carnaval. A banda é do pobre, do branco, do mulato e de gente de todas as colorações, inclusive político-religiosas. Quem não pode pagar uma temporada num clube qualquer ou quer ficar perto da massa, entra na banda, toma suas biritas, faz seu aquecimento para logo mais continuar seu carnaval. A Banda é do povo e deve passar todos os anos na avenida”.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Elementos para a arqueologia do Amapá

De acordo com a arqueóloga Beth Meggers, os habitantes nativos da Amazônia, desde os tempos anteriores à chegada dos espanhóis e portugueses, eram povos primitivos e de pobre expressão cultural, mais atrasados do que os maias, os incas e os astecas, povos considerados mais avançados do período pré-colonial na América Latina. Apenas a partir dos anos 80 é que, efetivamente, novas descobertas arqueológicas começam a sugerir que essas não eram as únicas sociedades classificadas como complexas na época do desembarque dos navegadores espanhóis e portugueses.

Uma das primeiras pesquisadoras que começaram a questionar teorias com a de Meggers, foi Anna Roosevelt. De acordo com suas descobertas, as primeiras evidências dos povos pré-históricos na região amazônica datam do ano 10 mil AC (Há, portanto, 8 mil anos atrás) e foram encontradas dentro da caverna “Pedra Pintada”, na região de Monte Alegre, próximo a Santarém, no Pará. Ao que tudo indica, esses grupos se sustentavam da coleta de frutas, caça e pesca.

No ano 4 mil AC, 6 mil anos depois, segundo Roosevelt, desenvolveu-se na região uma cultura de pescadores e coletores de moluscos, enquanto que os horticultores de raízes (principalmente mandioca e batata-doce) surgiram há cerca de 4 mil anos, coincidindo com o aparecimento de uma cerâmica mais elaborada e decorada. Finalmente, as primeiras sociedades mais complexas emergiram mais ou menos em 500 DC, sugerindo-se que a região amazônica teria sido um centro de inovação cultural.

Mais recentemente, Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida (EUA), e Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo, encontraram na Amazônia indícios da existência de grandes e refinados assentamentos humanos, habitados simultaneamente por alguns milhares de pessoas. Complementando os estudos de Heckenberger e Neves, Carlos Fausto, do Museu Nacional, tenta esclarecer que “alguns estudos da etnologia mostram que o manejo indígena do meio ambiente, de forma consciente ou inconsciente, tende a produzir maior biodiversidade do que se a floresta fosse, de fato virgem”. Alguns defendem, inclusive, que aqui8lo que a maioria das pessoas encara como floresta virgem é, na verdade, produto de uma interação milenar entre as populações indígenas e o ecossistema, e que a interferência humana no meio ambiente da Amazônia não degradou o solo local.

Outro elemento-chave sustenta a tese de que os índios pré-coloniais tinham um estilo de vida mais elaborado. São as manchas de terra preta (de grande fertilidade, produzida a partir da intervenção humana, após longo período de decomposição de carcaças de animais de caça, peixes, restos de plantas coletadas ou cultivadas, excrementos humanos, madeira e palha utilizadas na construção de habitações). Essas manchas indicam que alguns desses povos pré-colombianos se fixaram em pontos da bacia amazônica, construíram aldeias perenes, de consideráveis extensões, onde praticavam uma forma de agricultura. Na Região Amazônica essas formações datam, em sua maioria, de 2.500 a 500 anos atrás, indicando uma explosão demográfica e de sedentarismo, composta por culturas e civilizações diferentes (alguns dados estimam uma população global entre 1 e 3 milhões). A partir desse período, que coincide com a chegada dos portugueses, essas formações começam a se tornar mais raras, sinalizando um declínio das populações locais.

De acordo com as informações que temos até agora, quando os colonizadores europeus chegaram à Amazônia, em 1542, (data da primeira expedição de que se tem conhecimento, que desceu o rio Amazonas), encontraram uma população numerosa, com organização social complexa e belicosa, que abrigava aldeias extensas, unificadas por um poder central supremo, os chamados cacicados. Além disso, possuíam uma cultura sofisticada e inovadora, em arte e tecnologia.

O contato desses povos com os colonizadores foi devastador. Inexistem números exatos sobre o quantitativo da população indígena no Brasil na época, mas havia um contingente considerável que foi vítima, sobretudo, de doenças para as quais não estava imunizada, trazidas pelos europeus, além das chacinas provocadas. Outro fato foi o deslocamento, na fuga dos portugueses, provocando um efeito dominó, além de contagiar outros grupos. A mortandade estimada foi na ordem de mais de 90%.
Os que fugiram ou foram massacrados acabaram assimilados, muito catequisados pelos padres jesuítas. A partir daí, esses grupos passaram a refletir a influência européia nos temas e nas decorações de suas cerâmicas. Por outro lado, entre os grupos não-catequisados, os sinais de contatos com os europeus eram identificados pela posse de objetos de vidro e metal.

Segundo Eduardo Góes Neves, um dos mais importantes pesquisadores sobre o povoamento da Amazônia:

“Depende dos arqueólogos, o uso da arqueologia como uma fonte genuína de dados históricos, para compreender as trajetórias históricas das sociedades americanas nativas... e é empregando o trabalho como o principal recurso para compreensão dos diferentes processos históricos envolvidos, que algumas vezes remontam a mais de 10 mil anos atrás, que a arqueologia poderá dar sua contribuição maior e única à antropologia amazônica” (Twenty years of Amazonian archaeology in Brazil (1977. Inssues in Brazilian Archaeology. Special Section. Antiquity, Cambridge, v. 72, n. 277,p. 625-632. Sept, 1988).

Naturalistas como Henri Coudreau, Ferreira Penna, Lima Guedes e Emilio Goeldi tentaram desvendar, através de pesquisas de campo, o universo arqueológico do Amapá. A localização oficial do primeiro sítio arqueológico é atribuída a Ferreira Penna; foi em 1872, na região do Maracá, localizada na margem esquerda do rio Maracá, conhecida como Central do Maracá (Mazagão). A própria Betty Meggers e Clifford Evans, estiveram aqui no Amapá, entre 1948 e 1949, realizando aquela que vai ser caracterizada como primeira pesquisa extensiva do Estado.

Atualmente estão catalogados mais de 70 sítios arqueológicos pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que se concentram nas regiões principais: Amapá, Calçoene, Rio Jarí, Macapá, Mazagão e Rio Oiapoque. Os resultados das pequisas feitas até agora apontam que:

1 – Foram identificadas quatro tradições principais ou fases do povoamento do Amapá: Aristé, Mazagão, Aruã e Maracá.

2 – A linha do tempo acima mostra as estimativas de duração década uma dessas tradições, assim como os períodos em que foram contemporâneas. A partir dela podemos perceber que a fase Aristé foi a mais antiga e a mais duradoura, seguida pela Mazagão, que também desapareceu um pouco antes das outras três.

3 – Houve um período em que esses povos podem ter tido contatos com os colonizadores, já que perduraram até o inicio do século 18.
Na realidade, embora haja poucas informações apoiadas no teste do Carbono 14, todas essas fases parecem ter sido contemporâneas em determinado período e geograficamente contíguas.

Essas tradições nem sempre se localizaram em apenas uma das seis regiões de concentração de sítios arqueológicos do Estado. Os sítios da fase Aristé, por exemplo, são encontrados nas regiões Amapá, Calçoene, Macapé e no rio Oiapoque. Os da fase Aruã se concentram mais nas regiões Amapá e Calçoene. A fase Mazagão localiza-se mais na região de mesmo nome e no rio Jarí. E os sítios da fase Maracá, por fim, também se concentram na região de Mazagão.
A fase Aristé, a mais longa de todas, é também a mais conhecidas, graças ao antigo trabalho arqueológico de Emilio Goeldi junto aos poços artificiais Cunani, e pelo etnólogo alemão Curt Nimuendaju, no rio Uaçá. Parte da área onde os sítios Aristé foram encontrados era habitada, na época desses pesquisadores, por três diferentes grupos indígenas: os Palikur, os Galibi e os Karipuna. Pesquisas recentes no arque indígena de Uaçá evidenciam que existe uma forte associação entre a tradição oral Palikur e os locais dos sítios Aristé. De certa forma seria de se esperar tal associação, uma vez que os Palikur habitam essa região desde o século 16. O que surpreende é o fato de os Palikur terem sobrevivido até hoje, situados entre dois grandes assentamentos coloniais, como Belém e Caiena.

Atualmente destacam-se quatro regiões principais de concentração de sítios arqueológicos no Amapá. As duas mais antigas, cujos primeiros sítios foram encontrados ainda no século 19, são as margens do rio Maracá, o maior santuário ecológico do município de Mazagão, e os montes Curu, localizados na vila Cunani, que pertence ao município de Calçoene. A maior parte dessas peças encontradas foi transportada para os acervos do Museu Paraense Emilio Goeldi e do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

Com relação aos sítios arqueológicos do bairro do Pacoval, em Macapá, e no rio Preto, as descobertas foram recentes. Vejamos caso a caso nos próximos segmentos desta pesquisa.
Fazendo-se uma análise geral da ocupação pré-colonial do Estado, pode-se dizer que diferentes tradições culturais aqui floresceram, a partir do baixo Amazonas, do inicio do segundo milênio AC em diante. A maioria dessas tradições é pouco conhecida, dispondo-se de informações limitadas, muitas vezes restritas ainda a dados de localização no tempo e no espaço. O estudo dos padrões que caracterizam cada uma dessas tradições culturais e do significado associado às diferentes peças encontradas é fundamental para a compreensão dos processos históricos subjacentes, que compõem o “quebra-cabeça” para reconstrução das nossas origens.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cinema no Amapá, primeiros momentos

A primeira informação da presença desta arte no Amapá é de 15 de fevereiro de 1918. Nesta data o padre Júlio Maria Lombaerde funda, em Macapá, o Cine Olimpia, funcionando sempre aos domingos, exibindo cenas das vidas de Cristo e dos Santos. Na realidade, foi um cinematógrafo, conseguido na Bélgica. (Jornal Correio de Macapá, de 26 de fevereiro de 1918)

Em 9 de março de 1946, pela primeira vez é exibido em Macapá um filme em longa-metragem: “Um barco e nove destinos”, cujo cenário é a Segunda Guerra Mundial. Produção americana. (Jornal Amapá, de 12 de março de 1946.)

Em 1948 surge o Cine Territorial Teatro, do Governo do Território do Amapá, funcionando em área da atual Escola Barão do Rio Branco. O primeiro filme a ser exibido nesta casa de espetáculo “A Grande Ilusão”, (La Grande Ilusion, 1937 , dirigido por Jean Renoir, com o seguinte elenco: Jean Gabin, Pierre Fresnay, Erich von Stroheim .Obra-mestra do realismo de Jean Renoir, A grande Ilusão, é uma alegação a favor da paz e antimilitarista, da qual a condição humana emerge reforçada graças à solidariedade das pessoas correntes no meio dos antagonismos nacionais que deram lugar à Primeira Guerra Mundial. Filme de grande liberdade (a versão completa não apareceu até 1958) e de uma aprimorada maestria técnica, destacam-se nela a força de Jean Gabin, a elegância de Pierre Fresnay, e a composição de Erich von Stroheim.

De 1948 a 1955 o então governador Janary Nunes investiu muito em imagens cinematográficas para registrar as ações de governo. Existiam em torno de 78 documentários. Em 1976, com a reforma na Fortaleza de São José, onde estavam armazenadas as fitas, o então governador Arthur Henning promoveu um queimada da maioria dessas fitas. O que restou ficou em coleções particulares de pessoas como Estácio Vidal Picanço, que à época era chefe da Divisão de Assuntos Culturais da Secretaria de Educação.

Em 12 de novembro de 1949 o espectador amapaense assiste, pela primeira vez, no Cine Macapá, situado no centro da cidade, a primeira exibição: “A Felicidade Não Se Compra” (It's a Wonderful Life, 1946, dirigido por Frank Capra, com James Stexart, Donna Reed, Thomas Mitchell, Lionel Barrymore. Sinopse: Em Bedford Falls, no Natal, George Bailey (James Stewart), que sempre ajudou a todos, pensa em se suicidar saltando de uma ponte, em razão das maquinações de Henry Potter (Lionel Barrymore), o homem mais rico da região. Mas tantas pessoas oram por ele que Clarence (Henry Travers), um anjo que espera há 220 anos para ganhar asas, é mandado à Terra, para tentar fazer George mudar de idéia, demonstrando sua importância através de flashbacks.


Em 10 de outubro de 1953, uma companhia norte-americana lança um filme sobre o Amapá, intitulado “Pororoca”, focalizando a vida dos garimpeiros e seringueiros. (Jornal Amapá, de 16 de outubro de 1953).

Em 15 de abril de 1965, é inaugurado em Macapá o Cine Trianon, de propriedade de Guilherme Cruz, funcionando na sede do Trem Desportivo Clube. O primeiro filme exibido foi “O Homem de Oito Vidas”, da produtora japonesa RKO.

Surge também em 1965 o Cine João XXIII, estreiando o filme “O Morro dos Ventos Uivantes”, (Wuthering Heights, 1939, dirigido por William Willye, com Laurence Olivier, Merle Oberon, David Niven . Baseada no romance homônimo de Emily Bront, O Morro dos Ventos Uivantes é um dos melodramas mais arrebatadores da história do cinema. A partir de um roteiro de Bem Hecht e Charles Mac Arthur, é uma amostra do tratamento dos grandes temas românticos com a profissional maestria de Hollywood. Laurence Olivier criou um Heatj-cliff de uma frande conotação trágica, e Merle Oberon atingiu a fama com sua ambivalente Cathy.

Em 1968, o professor Armindo Oliveira produziu o primeiro super-8 em Macapá, denominado “Chop”, aproveitando a nomenclatura “Chopp” a uma espécie de refresco, colocado em um saco pequeno e congelado para ser servido, com o “Chopp” da cerveja. Em torno disse, Armindo criou uma história. Como estava na era militar, esse material foi apreendido por agente da PF em Macapá. Não se tem conhecimento se o professor Armando o recuperou.

Esta data marca, também, o aparecimento do primeiro Cine Clube, denominado “Cineclube Humberto Mauro”, que funcionou no mesmo local onde hoje funciona um jornal diário. O primeiro filme a ser exibido para os cinclubistas foi “As Férias do Senhor Hulot” (Les Vacances de Monsieur Hulot, com Jacques Tati, ano de 1963, Segundo a história o Sr. Hulot sai de férias para um hotel na praia mas sua chegada transtorna a avida dos veranistas; pois, não há ninguém como ele para provocar catástrofes, e suas melhores intenções degeneram em desastres que só o seu otimismo permite suportar alegremente. Apesar das confusões, Hulot consegue despertar simpatia, admiração e amizade. No filme, Tati satiriza a burguesia francesa caricaturando seus personagens.